Um jeans na tempestade

A gente pode ignorar a própria voz, fingir-se de surdo, simular que ouviu outra coisa. Até que uma segunda-feira chega com uma coleção de pequenos infortúnios. Chuva imprevista, um guarda-chuva esquecido em casa, uma poça de água no caminho para mergulhar os pés. Quando o recado é para ser ouvido, lamento dizer, é no berro que ele se fará ser notado.
O jeans velho parecia até bonito depois de tanto tempo sem uso. Encolhi a barriga e até que coube bem. Ainda é o mesmo manequim, afinal. Que sorte! Tanto sufoco para lembrar no instante seguinte que o tamanho não é a única medida a se considerar. Que interessa um jeans surrado se a gente olha no espelho e não encontra o próprio reflexo naquele visual?
E faz o que com a vontadinha de se adequar de novo? De resgatar emoções e juventude naquela velha roupa no armário? Faz como? Tenta, experimenta, usa uns dias. Vai até a padaria com o jeans. Em uma manhã ensolarada arrisca um percurso até o metrô. Dá uma volta para ver se alguém repara, se alguém acha estranho, se alguém te avacalha ou te aclama nas ruas. Nada acontece. A aprovação do outro tem nada a ver com isso. A pele é sua, o jeans é seu, o conforto ou desconforto também.
Anda para lá. Anda pra cá. Repete um rebolado antigo, talvez até descole um sapato dos velhos tempos para harmonizar o look. Cavoca uma auto-estima que você acha possível encontrar no jeans. Joga o cabelo para um lado, para o outro, troca tudo a sua volta para dar sentido àquela calça antiga.
Começa a ver defeito em cada costura. Aperta, pinica, está velho, está largo, está démodé. Põe-se a maldizer o danado do jeans depois de tanto trabalho no resgate da peça.
Por fim, ele está como sempre. Nem o pior vestuário do mundo tampouco o mais bonito. É só o corpo, a pele e as cicatrizes que não querem mais respirar por ali.
É só um toró na segunda-feira.
Ilustração: Sol Aburaya @acosmonautaestudio