Turista da própria história

Eu me dei de presente uma manhã de turista em Ribeirão Preto. Há seis anos eu era moradora, atravessava todo dia aquelas ruas do centro. Calça jeans, camiseta, tênis, um crachá e, vez em sempre, uma ressaca da noite anterior. O calor e o bar a uma quadra eram uma combinação imbatível para um dia difícil.

De vestidinho e sandália, lá estava eu relembrando como é sentir esse morno incessante, os sons, as pessoas, a vida na minha antiga vizinhança. Consegui errar as ruas e até fiquei confusa na busca pelo meu antigo endereço. De nostalgia passei a amnesia. Onde fica tudo mesmo?

O tudo se funde a tantas outras experiências, mais antigas, mais recentes, e permeadas pelo filtro do presente. É colocar foto antiga com um toque moderninho de Instagram. Vira lembrança repaginada. Quando eu olhei ao redor tudo era tão distante que parecia a vida de outra pessoa. Eu não lembro nem o nome do edifício – embora ainda soubesse o nome do bar.

Dá para se perder com facilidade pelas ruas que um dia foram a nossa rotina. Uma virada pequena e já entramos em outro rumo. Troca a cidade, a casa, o olhar. Arrisco dizer que quase todo mundo é dotado dessa capacidade incrível de adaptação. Pode doer, pode ser bom, pode ser uma dorzinha prazerosa. A gente segue e, em um piscar de olhos, construímos uma nova realidade que passa a se moldar nos nossos pés. Depois, o sapato velho nos causa estranheza. É sério que eu já usei aquilo?!

Foi assim que eu vi Ribeirão semana passada, um retrato antigo do fundo da gaveta. Suspirei saudades na bagunça das alegrias e tristezas vividas ali. Para burlar a inclinação de julgar o passado bom, encontrei um punhado de maus momentos. Na balança o bom e o ruim tem quase a mesma importância, são parte de nós, são os nós que carregamos.

Voltei para São Paulo e respirei fundo o cheirinho de esgoto da marginal. É ruim e também confortável, é o que eu chamo de casa agora. E foi só a vida em São Paulo que me permitiu usar pantufas, a voltar a escrever, a arriscar. Não sei se um dia serei novamente turista na capital. Se for, que seja boa a visita e o retorno ao meu novo canto.

A gente não é o que já foi, mas somos tudo o que vivemos. Nostalgia é bom na dose certa, resolvidas as saudades é despir-se do passado e vestir o seu presente.