Somos todos história

Seja você quem for e qual sua história, aposto que tem uma grande memória para chamar de sua. Não aquelas grandiosas, com som de orquestra, aplausos no palco, uma abertura apoteótica. É uma sutileza qualquer da vida, suficiente para aquecer o coração. Vale um domingo com panqueca de carne, uma caminhada até o mercado, ida a feira para comprar salgadinho de camarão. E o Silvio Santos aos domingos, é claro.

Os nossos retratos são de dias mais solenes. Reveillon, aniversário, casamento de alguém, festas com coxinha e bolo. Só existe celebração porque, nos dias comuns, também há afeto. Tecemos nossa teia diária de carinho, desentendimentos e conciliações. Também há espaço para manias, costumes, esquisitices que a gente aprendeu a fazer piada, a se divertir. Atire a primeira pedra quem não tem bordão ou gracejo partilhado no seu grupo. Pode ser de amigos, família, turma da escola. Parece bobo para quem é de fora, mas engraçadíssimo para quem participou da criação da piada.

O tempo todo, com pressa ou calmaria, marcamos nossa existência. Ao compor a nossa rotina, costuramos lembranças e produzimos outras novas. Um dia seremos somente história.

Do fundo do baú, recebi essa foto nesta semana. Meus avós em um período em que eles ainda nem tinham netos. Eu, a primeirona a chegar, nasci cinco anos depois do clique. Minha avó, com sua memória infalível, descreveu a ocasião, lembrou-se do vestido (ela mesma costurou), ficou intrigada com a camisa do meu avô – que roupa misteriosa era aquela, apagada das lembranças?

Contou da festa, do local, dos convidados, da gaveta da geladeira que serviu para temperar a carne do evento, que marcava os 25 anos do meu pai.

São tantos aniversários na vida. Tem de filhos, de netos, de marido, de casamento e, agora, de partida. Hoje, faz sete meses que meu avô morreu. Ela prefere falar que ele partiu, como quem faz uma longa e definitiva viagem. Gosto de pensar que ele só encerrou a sua própria história. Não há nada sem começo, meio e fim. Seja você quem for ou como leva a vida, também terá um fim para chamar de seu.

A história dele teve um final, eu participei do meio e sei do começo por relatos de família. A minha tem um avô Ercílio. Tem piada, tem panqueca, tem Silvio Santos, tem casa de avós. Tem saudade.

Como se despedir de alguém?

A Doença de Alzheimer é um pisca-pisca. Tem hora que acende e meu vô tem alguns instantes de presença. Em seguida, apaga e fica pairando em algum lugar distante. A gente nunca sabe quando vai acender nem quando vai apagar. Aproveita enquanto tem luz. Quando a escuridão volta se esforça para manter algum brilho aceso. Puxa uma prosa, tenta resgatar uma memória, arrisca uma piada. Faz o bobo da corte.


Em um desses dias enevoados eu me arrisquei em uma atividade em que sou péssima: cantar. A música é, ultimamente, o ponto de conexão do meu vô com o mundo externo. É quando seus olhos verdes opacos identificam o som e ele volta a estar presente.
“Há uma nuvem de lágrimas sobre os meus olhos, dizendo para mim que você foi embora e não demora o meu pranto rolaááááár”. Segui com o lá lá lá na maior enrolação. Aqui vale a confissão, eu não canto nem em karaokê. Porém, ridiculamente eu tentava seguir a Fafá de Belém na TV. Eu só queria começar a música para ele me seguir. Silêncio. Nada. Pisca-pisca segue apagado, pensei frustrada.
O olhar dele desvia da TV para mim que, nessa altura, além de enrolar a cantoria já fazia passinhos desajeitados na sala. Vira o pescoço, me olha, não canta. Sentencia:
– Você está desafinada!
– É mesmo, vô?
– Tem que seguir o tom.
– Eu sou ruim mesmo, vô. Como faz?
Ele balbuciou um trechinho da música e logo sacudiu a cabeça, me reprovando de vez como intérprete. Depois, deu uma sonora risada e colocou a mão no meu ombro. O riso rouco de vô fumante que eu conheço desde que sou pequena. Comemorei a luz acesa de novo.
Assim que se apaga o coração aperta um pouquinho. Respira, suspira, agradece. E torce para que o pisca-pisca funcione mais um Natal ou até a despedida.