Bater um fio

De fixo para fixo, somos as últimas sobreviventes dessa antiga forma de comunicação. Eu não ligo por ela. Eu ligo por mim. Não importa que a história é repetida, o assunto é requentado ou se é roteiro do programa de TV que ela assistiu durante a noite. O alô do outro lado é conforto e pertencimento. É a volta para casa, cheia de trivialidades nostálgicas. É ver a luz atravessar a barreira transparente do vitrô da cozinha até a chaleira de alumínio no fogão, vê-la com o avental amarrado na cintura a dar um bom dia apressado de quem já articulava o almoço.


Tudo é diferente agora, os espaços, a rotina, a ausência dele. Permanece igual o aconchego do outro lado da linha a afagar o meu coração de neta.
Pouco importa a minha bagagem de mulher adulta de trinta e tantos anos. A casa dela é o meu canto de proteção de infância. Meu esconderijo nada secreto em que eu volto a ver quem sou. É reencontro com a essência.
Não por acaso, somos parecidas. Manias e teimosias partilhadas por nós. Cultivadas ou herdadas, a vida se repete em gestos, nas ações e nos mini dramas cotidianos. Em relatos telefônicos.
Toda semana eu repito o telefonema. Ela repete uma história qualquer.
Viver pode ser uma adorável repetição.

Turista da própria história

Eu me dei de presente uma manhã de turista em Ribeirão Preto. Há seis anos eu era moradora, atravessava todo dia aquelas ruas do centro. Calça jeans, camiseta, tênis, um crachá e, vez em sempre, uma ressaca da noite anterior. O calor e o bar a uma quadra eram uma combinação imbatível para um dia difícil.

De vestidinho e sandália, lá estava eu relembrando como é sentir esse morno incessante, os sons, as pessoas, a vida na minha antiga vizinhança. Consegui errar as ruas e até fiquei confusa na busca pelo meu antigo endereço. De nostalgia passei a amnesia. Onde fica tudo mesmo?

O tudo se funde a tantas outras experiências, mais antigas, mais recentes, e permeadas pelo filtro do presente. É colocar foto antiga com um toque moderninho de Instagram. Vira lembrança repaginada. Quando eu olhei ao redor tudo era tão distante que parecia a vida de outra pessoa. Eu não lembro nem o nome do edifício – embora ainda soubesse o nome do bar.

Dá para se perder com facilidade pelas ruas que um dia foram a nossa rotina. Uma virada pequena e já entramos em outro rumo. Troca a cidade, a casa, o olhar. Arrisco dizer que quase todo mundo é dotado dessa capacidade incrível de adaptação. Pode doer, pode ser bom, pode ser uma dorzinha prazerosa. A gente segue e, em um piscar de olhos, construímos uma nova realidade que passa a se moldar nos nossos pés. Depois, o sapato velho nos causa estranheza. É sério que eu já usei aquilo?!

Foi assim que eu vi Ribeirão semana passada, um retrato antigo do fundo da gaveta. Suspirei saudades na bagunça das alegrias e tristezas vividas ali. Para burlar a inclinação de julgar o passado bom, encontrei um punhado de maus momentos. Na balança o bom e o ruim tem quase a mesma importância, são parte de nós, são os nós que carregamos.

Voltei para São Paulo e respirei fundo o cheirinho de esgoto da marginal. É ruim e também confortável, é o que eu chamo de casa agora. E foi só a vida em São Paulo que me permitiu usar pantufas, a voltar a escrever, a arriscar. Não sei se um dia serei novamente turista na capital. Se for, que seja boa a visita e o retorno ao meu novo canto.

A gente não é o que já foi, mas somos tudo o que vivemos. Nostalgia é bom na dose certa, resolvidas as saudades é despir-se do passado e vestir o seu presente.

Somos todos história

Seja você quem for e qual sua história, aposto que tem uma grande memória para chamar de sua. Não aquelas grandiosas, com som de orquestra, aplausos no palco, uma abertura apoteótica. É uma sutileza qualquer da vida, suficiente para aquecer o coração. Vale um domingo com panqueca de carne, uma caminhada até o mercado, ida a feira para comprar salgadinho de camarão. E o Silvio Santos aos domingos, é claro.

Os nossos retratos são de dias mais solenes. Reveillon, aniversário, casamento de alguém, festas com coxinha e bolo. Só existe celebração porque, nos dias comuns, também há afeto. Tecemos nossa teia diária de carinho, desentendimentos e conciliações. Também há espaço para manias, costumes, esquisitices que a gente aprendeu a fazer piada, a se divertir. Atire a primeira pedra quem não tem bordão ou gracejo partilhado no seu grupo. Pode ser de amigos, família, turma da escola. Parece bobo para quem é de fora, mas engraçadíssimo para quem participou da criação da piada.

O tempo todo, com pressa ou calmaria, marcamos nossa existência. Ao compor a nossa rotina, costuramos lembranças e produzimos outras novas. Um dia seremos somente história.

Do fundo do baú, recebi essa foto nesta semana. Meus avós em um período em que eles ainda nem tinham netos. Eu, a primeirona a chegar, nasci cinco anos depois do clique. Minha avó, com sua memória infalível, descreveu a ocasião, lembrou-se do vestido (ela mesma costurou), ficou intrigada com a camisa do meu avô – que roupa misteriosa era aquela, apagada das lembranças?

Contou da festa, do local, dos convidados, da gaveta da geladeira que serviu para temperar a carne do evento, que marcava os 25 anos do meu pai.

São tantos aniversários na vida. Tem de filhos, de netos, de marido, de casamento e, agora, de partida. Hoje, faz sete meses que meu avô morreu. Ela prefere falar que ele partiu, como quem faz uma longa e definitiva viagem. Gosto de pensar que ele só encerrou a sua própria história. Não há nada sem começo, meio e fim. Seja você quem for ou como leva a vida, também terá um fim para chamar de seu.

A história dele teve um final, eu participei do meio e sei do começo por relatos de família. A minha tem um avô Ercílio. Tem piada, tem panqueca, tem Silvio Santos, tem casa de avós. Tem saudade.