Segunda-feira

O meu corpo desperta. E é como se, de repente, eu tivesse acordado junto. Não é sem sacrifício que eu deixo a cama, devo admitir. Movida por uma culpa de circular somente nos cômodos de um apartamento, depois de assistir milhares de atletas fazendo esforço na competição olímpica. Além disso, percorri durante anos consultórios médicos para voltar a figurar no time dos saudáveis, e parece ingratidão comigo mesma sucumbir ao sofá – ainda que o frio da capital seja tão atrativo.

Coloco a roupa que eu não gosto e me faz sentir ridícula, aperto o botão do elevador a fim de me juntar a outras pessoas na saga matinal do Pilates. A sensação é bem prazerosa e, mesmo difícil, me agradam os exercícios. Mas no meio do caminho tem a preguiça. E vencê-la é briga das boas.

Aos poucos, tudo amanhece. Treme perna, repuxa braço, nariz entupido de um lado. Respira fundo, pressiona abdome, costas, coxas. Por um momento, até parece que o ar circula melhor. Faço novo teste e atesto que é só a sensação mesmo. A narina inútil segue sem função – ar zero, não entra, nem sai.

stretching-exercises

Concentro no movimento. Logo me perco ao lamentar mentalmente a idade, o ócio, os dias áureos. Então, recordo que nos antigos dias áureos eu também os classificava como dias péssimos e colocava-me a pensar em outros dias ainda mais áureos. Sistema de auto boicote birrento entrando em ação. Ao sinal de movimento, um botão interno da memória é acionado para me lembrar o quanto eu já fui melhor e como minha forma atual é vexatória. Faço meu contra-ataque: passado mais tempo será pior e esses serão os novos dias áureos. Ótimo, estou vivendo dias áureos, afinal. Áureos para hoje, minha gente.

Pronto. Sinto mais disposição. Era como se eu tivesse em maravilhosa forma física. Sinto dedos dos pés, a panturrilha, até cãibra na coxa. Barriga doer e se afundar (e não é que ela não é tão grande assim?), sinto meus braços finos e moles, as bochechas expandirem para um bocejo que, de tão grande e profundo, dá até lágrimas nos olhos que escorrem pelo rosto.

pilates

Menos autocrítica e mais consciência corporal, ralhei comigo. Eu e meu corpo não vamos para as Olimpíadas mesmo. Mentaliza que no futuro você pode ser essa senhorinha japonesa que estica o pé sorrindo. Ok, menos. Fazer o possível, o seu melhor possível, é incrível o suficiente. Respira. Olha que lindo dia áureo começando para você.

Depois, ao ver o jornal, li que uma hora de atividade física anula os malefícios de oito horas sentada. Nem precisa muito, está vendo? Rigidez, pode ir catar coquinho. Hoje, vamos de leveza mesmo. Porque a segunda já é mal falada demais para gente ainda malhar a coitada.