Ele não existe mais

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Os dias depois da morte de alguém são estranhos. É um tumulto interno que se opõe ao vazio físico. Tem um monte de coisa para resolver e, ao mesmo tempo, não tem mais solução. A pessoa já foi, caso encerrado. O que fica é papel, documentos, contas, a burocracia do pós-morte. Essa sim, sobrevive e pode desenrolar por um bocado de tempo.

O ritual de esvaziar o armário, empacotar, dobrar, foi rápido. É ativar o modo seguir em frente, mas com o botão de acelerar pressionado, como a gente fazia com os filmes na época do videocassete. Apertei. Em alguns dias, a casa estava em caixas pronta para o novo destino. Os pertences do meu avô foram separados, a vida cabe em sete sacos, escrevi para o meu marido.

Para poupar a minha vó, fiz tudo freneticamente. Fiz compras, listas, joguei fora, levei para a outra casa. O endereço em que ela morou há mais de quatro décadas tinha sido repaginado para recebê-lo com mais conforto. Vi o novo lar se ajeitar com os móveis que eu tinha escolhido, com as caixas que eu fechei e agora abria para organizar ali.

Tudo estava acelerado até o dia da inauguração, que não teve festa nem laço vermelho, como eu tinha planejado. Não tinha muito sentido festejar já que um morador não tomaria posse do seu lugar. Mas, tocar a vida é imperativo e, assim, eu conduzi a minha avó até a casa nova. Mostrei os detalhes, a cortina, as gavetas, as camas arrumadas. Ouvi ela elogiar e dizer com pesar que faltava o principal.

Fiz café, comprei pão, coloquei a mesa. É em volta da comida que a gente conversa, se une, conta causo. Teve visita, vizinha, parente, gente inconveniente. De tudo um pouco. Ela estava cansada. Eu também.

Na hora de dormir, ajeitamos a luz e conversamos. Eu na minha cama de sempre, ela na sua de casal agora solitária. Falou dele, repetiu o último dia, começou a usar o verbo passado. Falou de um tempo “quando ele existia”.

A informação soava como novidade. Como se eu não tivesse estado presente em todas as etapas. Fiz cara de atenta, para ela se sentir confortável, porém estava perdida e afundava nessas palavras. Ele não existe. Meu avô não existe. Como assim meu vô não existe mais, gente? É meu avô, oras. Como alguém deixa de existir?

Eu não tinha resposta e ainda não a tenho. E também não a procuro. Convivo com a afirmativa da frase e só.

Hoje entendo que falar sobre morte é, inevitavelmente, falar sobre a vida. Em contraposição ao fato dele não mais existir está toda a sua longa existência. Saber que ele não existe é ter certeza que ele existiu. É lembrar músicas, gostos, piadas e até das implicâncias. É celebrar com saudade os anos de convivência. É nó que se faz e desfaz.

Deve ser isso o que chamam de luto. Toda essa bagunça que se faz dentro de nós. E para isso não tem botão de acelerar. A gente até tenta, mas o controle não obedece. Rebobina o filme, volta no começo, depois pausa, segue, vai para o fim, retorna. E nessas reprises, a gente chora de novo, pára, ri um bocado, cai nas lágrimas outra vez, volta a sorrir, faz até piada.

A vida de quem já existiu é como um filme favorito. A gente assiste, revê, decora as falas, conta para os amigos, repete, repete e repete. Já sabe as partes tristes e as felizes, conhece o início e a cena final. Daqui a pouco vai ver um pouco menos, vai deixar de lado, depois vai colocar só para ver algumas cenas divertidas, depois vai ver tudinho sem parar. E vai sempre ter a mão para quando der saudade.

Eu, eu mesma e a resistência

Qualquer vírgula fora do lugar é um ótimo álibi para interromper o que se propôs a fazer. Quando a ortografia não é a culpada, são as ideias que não aparecem. Ou, se alguma dá as caras, não é assim lá grande coisa. Para, segue pouco, hesita mais do que deveria, tem dúvidas e, por isso, sempre duvida que é isso mesmo que deva fazer.

Respira, persista, persista, persista, diz uma vozinha na sua cabeça. Afasta de si a pretensão de ser brilhante. Não precisa. Lembra, você mesma escreveu sobre isso. Nada precisa. A lista é você quem faz e, se ser brilhante é um item tão chato que te impede de ir para a etapa seguinte, tira. Simples assim. Risca. Com aquele traço de alívio que se coloca nas tarefas já feitas. Edita. A lista, as ideias, o medo, a vida. Corta, tira, põe. Mas, faça-me o favor. Coloque mais leveza. Nada é assim, tão decisivo, definitivo, caso de vida ou morte. Lembra, você aprendeu faz tão pouco tempo. Caso de vida ou morte é somente a morte mesmo. Essa, você bem viveu de perto, não tem jeito. O resto é tudo aquilo que não se encaixa nisso. Respira. Viu como pode dar certo?

Não, desculpa. Vou reformular. Não é dar certo oposto de errado. É dar certo sinônimo de resultar em algo, seja lá o que for. Pronto, já sei. É ter um resultado, é produzir, é inventar. O outro lado você também já conhece, não é mesmo? É o interlocutor, o que recebe – ou não, porque ninguém é obrigado, né? – a sua mensagem. Como, onde, porque, de que forma isso vai acontecer, veja só, é problema dele e não seu. Já chega de lead na vida, né? Essa fase, como em um game, já passou. A próxima está para começar. Mas COMEÇA, caramba. Que coisa!

Eu sei. Você não tem um começo. Falta aquele início arrumadinho, perfeito, com todos os pontos no lugar. Você sabe que isso não existe, né? É como Papai Noel. A gente escuta por aí, está nas histórias de cada família e até na propaganda da Coca-Cola. Mas quando aparece, não tem nada de bochechas rosadas e barba branquinha. É algum parente suando em bicas em um traje vermelho desbotado e barriga falsa disforme, que é uma almofada que não se ajeitou direito ali. Isso quando aparece, você bem lembra que na sua casa ninguém dava as caras. Para evitar a roupa e reação desconfortável a tática familiar era chamar a criançada só quando ele já tinha ido.

Seja como for, com o bom velhinho desajeitado ou sem vestígio algum dele, o Natal não deixava de ser festa, né? De ser uma data esperada e, pelo menos, um dia divertido e recheado de comida. Os preparativos, por fim, eram tão ou mais legais do que o grande dia.

Viu? Dá para ser um começo assim, feito Papai Noel desajeitado. Só coloca ele no mundo. Bota ele no trenó – e vale metrô ou ônibus mesmo – e deixa ele sair por aí. Ele será odiado, amado, indiferente para um bocado de gente. E cada um que lide com isso, oras.

Respira. Respira direito. Fundo. Vai, estou esperando uma tentativa com mais vigor. R-e-s-p-i-ra. Melhor, bem melhor.

Pronto. Faça. Exercite, continue, insista, persista. O papo da transpiração e não inspiração, lembra? Vai. Segue. E deixa a resistência quieta porque ela já tagarelou muito.

Quando emperrar, começa lá do começo desse texto. Observe, não é que saiu?