Conexão

De longe qualquer cenário pode apavorar. O outro só é outro quando existe distância, contato remoto, cordial, relação de superfície. Sabemos pouco e julgamos muito. Na tentativa de se proteger, de entender, de decifrar, conjecturamos tanta coisa. De repente, estamos lá, a levantar espada para um moinho de vento, tal qual o Dom Quixote. Produzimos ficção e, em um suspiro, tomamos por realidade a nossa peça fantasiosa.

Vem o universo a desnudar a vida como ela é. Somos todos corpo, alma e sentimentos. Nessa confusão construímos nossas histórias e desenhamos caminho. É cada cenário bonito se tem para ver por aí. Toda pessoa é um artista da própria vida. Parece frase de impacto e clichê. Mas é o que nos conecta. Somos tão parecidos em nossas humanidades. É insegurança, é dúvida, é força, é energia. Todos temos dentro tudo isso e, ao invés de admirar somente a própria tela, vale uma pausa para ver a grama verde do vizinho. Esparramar disponibilidade para enxergar outros olhos, dividir, partilhar, chorar.

O gramado que brilha tem uma narrativa de amor, de luta, de coração partido. Não há quem não tenha vivido uma frustração, uma perda e, com os pedaços esparramados reconstruído a própria vida. Viver é ajeitar diariamente o quebra-cabeça. É insistir em deixar o quintal verdinho mesmo com a chuva escassa, recuperar a paciência e replantar, tirar o que atrapalha o crescimento, persistir. A grama reluzente ao sol hoje pode amanhecer amanhã sem brilho. Seja qual for o estágio do quintal do outro – e do seu – continue a cuidar das relações humanas.

Esse poder de conexão entre as pessoas é tão incrível e arrebatador que eu recomendo a todo mundo. Todo encontro vale a pena. Certo quem disse que a vida é arte do encontro. Mas ele não precisa ser assim tão raro. Não espere ocasião especial, traje pomposo, convite com letras douradas enviado pelos Correios. Pode ser via inbox do Facebook, pode ser whatsapp e pode ser inesperado – desde que você esteja aberto a ele.

Na semana passada, uma simples troca de mensagem resultou em um café. Conversa que começou com a luz da tarde e se esticou animadamente até para lá da hora do jantar. Tanta vulnerabilidade exposta à mesa, sendo servida e partilhada. Conquistas modestas para a louca vitrine do mundo que prega o sucesso instantâneo, mas imensas aqui dentro da gente que sentiu as dores – e delícias – de cada passo dado. Sair do zero, ainda que sinta que é zero-vírgula-alguma coisa, já é um passo à frente a formar o caminho.

Insisti na troca virtual de comunicação e, no dia posterior ao café, me vi em outro encontro, dessa vez com cerveja no dia mais celebrado da semana – sexta-feira êêêê!!! Doloridas histórias e lembranças que, ao dividir com alguém, ajuda a assentar a tristeza e lembra que, apesar de tudo, a roda da vida segue e volta a nos dar trazer alegria. Momentos bons como o próprio reencontro embalado a cerveja e batata frita na Augusta, um novo desafio profissional, o casamento que logo terá seus votos afirmados no papel. Dá para pulsar mesmo com as saudades no peito.

E como nem tudo é agendado, tive um encontro inesperado no fim do ano passado, que já entrou na lista dos memoráveis. Caso de doença não é daqueles acasos felizes, mas, mesmo na dor, a gente também pode se conectar e achar algo bom para levar. De todo o sufoco de alguns dias, foi a trajetória de uma mulher forte que me ficou na memória – e também no coração. Uma biografia linda, repleta de batalhas e conquistas, de partidas e da chegada de um amor pleno na maturidade. Vitalidade pura!

Agradeço a vida por cada um desses encontros e, a cada uma dessas mulheres, agradeço por permitir a troca. Que todo mundo consiga abrir um cantinho em si mesmo e também receber de volta.

 

A imensidão da velhice

Os dias da velhice são longos. Afrontando a juventude, que nunca tem tempo para nada, a reta final da vida tem as horas esticadas. As refeições aumentam, os cochilos também e, mesmo com a agenda cheia de médicos, ainda se tem espaço para fazer nada – e o melhor, é ócio sem culpa! Afinal, as obrigações da vida já foram cumpridas. E, se não foram, tanto faz.

Dá para fazer somente o que se gosta, abandonar um hobby e começar outro, trocar de novo, tentar, deixar pra lá. Dá para ver o movimento na rua sentado em cadeira de praia.

Tenho pouca memória do meu vô indo trabalhar. Eu tinha cinco anos quando ele se aposentou e tornou-se dono do próprio tempo. Não era uma rotina frenética, mas também não tão descansada assim. Havia espaço para tudo, para pescar, tocar violão, jogar baralho. As refeições variavam pouco de horário e, entre elas, a vida era preenchida. Na volta completa do relógio muita coisa se encaixava e não havia sobra, nem escassez. O tempo parecia na medida para o que se queria fazer.

Mas o descompasso parece sempre invadir a melodia da vida e, o que estava ajeitado, se alargou um pouco. Os dias completos que vestiam tão bem os desejos da aposentadoria, tornaram-se maiores e cheio de horários vagos. É verdade que as limitações da idade deixam o dia longo, não se vai mais de carro às compras, não se aventura na beira do rio, o percurso a pé é só até a esquina de casa. As atividades encurtam e o dia aumenta. Mas a grande mudança é que os minutos se alongaram um bocado mais quando a memória já não ajuda.

O momento presente e o amanhã de misturam, o ontem às vezes entra na dança e já não se tem o controle do calendário. Sem saber muito sobre a divisão do relógio ele se torna enorme. Um dia parece muitos, uma semana equivale a meses. O silêncio cresce nessa imensidão de tempo livre. O quarto, a sala, uma fresta de sol, o escurecer. Tudo tem silêncio e mansidão.

De repente, um som chama a sua atenção e ele fixa os olhos no filho primogênito sentado ao lado. O seu olhar ganha brilho e parece sorrir. Respira e canta junto:

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do meu pode ser

Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação

Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror
Eu só sinto é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor

E aquele dia interminável e quieto, volta a cadenciar. Embalado pela música, no tom exato das notas, no sofá da sala. Os nervos do vó já estão maleáveis. Mas os Nervos de Aço da música de Lupicínio Rodrigues seguem firmes na memória.
Contrariando as horas vagarosas e demoradas, aqueles instantes foram tão ritmados que marcaram o tempo, congelaram e se tornaram lembranças.
A vida insiste em pulsar mesmo na calmaria do seu fim.

Ano Novo

Estar longe da escrita é pensar que se perdeu a própria voz. Que a alma ficou rouca até emudecer e fazer-se apenas silêncio. Mas é preciso respeitar o próprio tempo, se permitir calmaria, ausentar-se. Foi assim o fim do ano e o encontro com o Jalapão, no Tocantins.

Sem a tradicional ceia, nem presentes, nem árvore com bolas coloridas. No meio do cerrado, era tempo de lembrar o incrível azul do céu, de ver nuvens, sentir água, sol, mosquito. Um mundo todo a girar enquanto a gente vive esbaforido na capital.

Dunas do Jalapão (TO)

Longe das festas e dentro de si. Tentando se reconectar com o que é essência, reavaliando, afinal, o que é mesmo que importa. Separar o que era preciso ao próximo ano e o que descartar. Respirar. Só respirar. Sem ansiedade, nem compromisso, nem pressa. Como se respira, mesmo? Sentir o ar. Aquele que parece faltar sempre que a vida aperta. Sentir que o ar não foge ao peito. A gente que corre dele no alvoroço dos problemas e das dores nossas de cada dia.

Aquietando o barulho interno é possível ver o infinito. E como tem cor nesse mundo! Misturadas, separadas, completas. Os sons inesperados, de bicho, de mato, de água. A cada dia uma nova sensação, uma descoberta, um lugar ainda mais bonito.

Fervedouro Buritizinho (TO)

Por fim, a beleza só se manifesta para o observador disposto. A paisagem lá fora reflete o que sentimos em nós. O Jalapão ecoa até agora porque eu me abri a ele. De volta, ele mostrou toda a sua plenitude.

Serra do Espírito Santo (TO)

Que em 2017 a gente encontre o equilíbrio que vemos na natureza. Que consegue ter mansidão e agitação em uma medida exata para seguir seu curso.

Vamos consentir a jornada que nos realiza.

Feliz mais um ano!

Como se despedir de alguém?

A Doença de Alzheimer é um pisca-pisca. Tem hora que acende e meu vô tem alguns instantes de presença. Em seguida, apaga e fica pairando em algum lugar distante. A gente nunca sabe quando vai acender nem quando vai apagar. Aproveita enquanto tem luz. Quando a escuridão volta se esforça para manter algum brilho aceso. Puxa uma prosa, tenta resgatar uma memória, arrisca uma piada. Faz o bobo da corte.


Em um desses dias enevoados eu me arrisquei em uma atividade em que sou péssima: cantar. A música é, ultimamente, o ponto de conexão do meu vô com o mundo externo. É quando seus olhos verdes opacos identificam o som e ele volta a estar presente.
“Há uma nuvem de lágrimas sobre os meus olhos, dizendo para mim que você foi embora e não demora o meu pranto rolaááááár”. Segui com o lá lá lá na maior enrolação. Aqui vale a confissão, eu não canto nem em karaokê. Porém, ridiculamente eu tentava seguir a Fafá de Belém na TV. Eu só queria começar a música para ele me seguir. Silêncio. Nada. Pisca-pisca segue apagado, pensei frustrada.
O olhar dele desvia da TV para mim que, nessa altura, além de enrolar a cantoria já fazia passinhos desajeitados na sala. Vira o pescoço, me olha, não canta. Sentencia:
– Você está desafinada!
– É mesmo, vô?
– Tem que seguir o tom.
– Eu sou ruim mesmo, vô. Como faz?
Ele balbuciou um trechinho da música e logo sacudiu a cabeça, me reprovando de vez como intérprete. Depois, deu uma sonora risada e colocou a mão no meu ombro. O riso rouco de vô fumante que eu conheço desde que sou pequena. Comemorei a luz acesa de novo.
Assim que se apaga o coração aperta um pouquinho. Respira, suspira, agradece. E torce para que o pisca-pisca funcione mais um Natal ou até a despedida.

Segunda-feira

O meu corpo desperta. E é como se, de repente, eu tivesse acordado junto. Não é sem sacrifício que eu deixo a cama, devo admitir. Movida por uma culpa de circular somente nos cômodos de um apartamento, depois de assistir milhares de atletas fazendo esforço na competição olímpica. Além disso, percorri durante anos consultórios médicos para voltar a figurar no time dos saudáveis, e parece ingratidão comigo mesma sucumbir ao sofá – ainda que o frio da capital seja tão atrativo.

Coloco a roupa que eu não gosto e me faz sentir ridícula, aperto o botão do elevador a fim de me juntar a outras pessoas na saga matinal do Pilates. A sensação é bem prazerosa e, mesmo difícil, me agradam os exercícios. Mas no meio do caminho tem a preguiça. E vencê-la é briga das boas.

Aos poucos, tudo amanhece. Treme perna, repuxa braço, nariz entupido de um lado. Respira fundo, pressiona abdome, costas, coxas. Por um momento, até parece que o ar circula melhor. Faço novo teste e atesto que é só a sensação mesmo. A narina inútil segue sem função – ar zero, não entra, nem sai.

stretching-exercises

Concentro no movimento. Logo me perco ao lamentar mentalmente a idade, o ócio, os dias áureos. Então, recordo que nos antigos dias áureos eu também os classificava como dias péssimos e colocava-me a pensar em outros dias ainda mais áureos. Sistema de auto boicote birrento entrando em ação. Ao sinal de movimento, um botão interno da memória é acionado para me lembrar o quanto eu já fui melhor e como minha forma atual é vexatória. Faço meu contra-ataque: passado mais tempo será pior e esses serão os novos dias áureos. Ótimo, estou vivendo dias áureos, afinal. Áureos para hoje, minha gente.

Pronto. Sinto mais disposição. Era como se eu tivesse em maravilhosa forma física. Sinto dedos dos pés, a panturrilha, até cãibra na coxa. Barriga doer e se afundar (e não é que ela não é tão grande assim?), sinto meus braços finos e moles, as bochechas expandirem para um bocejo que, de tão grande e profundo, dá até lágrimas nos olhos que escorrem pelo rosto.

pilates

Menos autocrítica e mais consciência corporal, ralhei comigo. Eu e meu corpo não vamos para as Olimpíadas mesmo. Mentaliza que no futuro você pode ser essa senhorinha japonesa que estica o pé sorrindo. Ok, menos. Fazer o possível, o seu melhor possível, é incrível o suficiente. Respira. Olha que lindo dia áureo começando para você.

Depois, ao ver o jornal, li que uma hora de atividade física anula os malefícios de oito horas sentada. Nem precisa muito, está vendo? Rigidez, pode ir catar coquinho. Hoje, vamos de leveza mesmo. Porque a segunda já é mal falada demais para gente ainda malhar a coitada.

Códigos

Tudo complicou demais. Era sigla, era termo, era estratégia. Desenvolveu antipatia pela palavra estratégia. Seguida de digital, então, revirava o estômago, o intestino, o esôfago e cada cantinho do seu aparelho digestivo. Sim, era a digestão seu ponto fraco. Era para lá que todas as dores do mundo se concentravam. Mágoa, tristeza, brigas, dor, decepção. Tudo encerrava ali, em algum lugar entre a garganta e a barriga.

Bom, não bastasse as mazelas do mundo todo no seu pobre aparelho digestivo tinha todo o mundo digital para engolir agora. Até se considerava um pouco conectada. Nível básico. A tecnologia é incrível, mas aqueles numerinhos ali na tela apertava-lhe o ar no pulmão. Número não, amor, isso é código, explica o marido, para quem tudo era tão lógico e simples.

Código?! Que ca#@!%! Não conseguia nem memorizar a senha do e-mail e do Facebook. E de repente, pá! Outra rede social imperdível que todo mundo estava e que se tornava instantaneamente mais fundamental que oxigênio.

Puxou o ar com dificuldade como se o septo tivesse ficado ainda mais defeituoso. Respira. Lembrou do áudio da meditação. Mas estava no computador, em alguma pasta, arquivo, sabe-se Deus onde. Ficou mais nervosa. Deixa para lá. Vou respirar a minha moda.

imagem_seo

CEO? Não, SEO. É “esse” e não “cê”. Não dá nem tempo de acostumar com a pompa de um chefe que virou CEO – e o ódio aos termos em inglês se aprofundou ainda mais – e já tem sigla parecida no pedaço.

Uma coisa não tem nada a ver com outra, amor – o marido sorria e achava graça. E, com paciência, soletrou os dois termos, em inglês, em português, mas soava mesmo era mandarim. Indecifrável. No minuto seguinte, esqueceu cada vírgula pausada do cônjuge.

Jesus, que tempos são esses? O que é Pokemon GO, amor? Ele tentou explicar. Ela tentou entender. O cérebro desconectou quando ele falou algo sobre realidade aumentada. A realidade já é tão difícil, gente, precisa aumentar?! Deixa para lá. Não ia jogar nada mesmo. Parou no Super Mario Kart na década de 90. Recaiu nos jogos muitos anos depois com os passarinhos, qual era o nome? Angry Birds! Eram bonitos. Mas durou pouco tempo, cansou. Foi feliz e fim.

Entendeu que o caminho era simplificar. Digital, só o que é necessário e compreensível. De resto, escrever segue sendo analógico. Para ele, os códigos, para ela, as letrinhas. Que, graças a Deus, ainda são iguais – até agora.

A lista do você tem que fazer

Em algum momento da história surgiram milhares de listas do que a gente deve fazer. De livros a textos de internet com certeza você já viu alguma por aí. Coloquei no google “20 coisas para fazer…” e já tive um bom cardápio: antes dos 30, dos 20, de morrer, de casar, de se apaixonar. Tem lista de 30, 40, 1000 itens. Tem para homem, mulheres, solteiras, todo ser vivo no planeta. Livro imperdíveis, filmes, comida e restaurantes que você precisa conhecer (são as minhas favoritas!), lugares (uso todas possíveis para decidir as férias), e até anti-lista – tem o que você deve parar de fazer.
A listas são divertidas e deve ter lá algum item que você pode usar (comer sobremesa calórica no café da manhã foi uma dica que eu seguia sem saber!). Há exageros, como pular de paraquedas – aqui vale a ressalva, é um absurdo para alguém como eu que passa mal até em brinquedo de parquinho do interior. Algumas são alertas, outras em tom de conselho, tem as que são um compilado de dicas.
A minha não tem números nem está escrita no papel. Devo ter ouvido e fui pegando, guardando, fazendo um calhamaço enorme de ideias do que eu achava que deveria ter realizado ao chegar na vida adulta. E essa linha entre jovem e adulto na minha cabeça era os 30 anos. Afinal, todos os adultos que eu conheci quando era menor tinha mais ou menos essa idade (inclusive, meu pai já era o meu pai).
lista
As coisas que eu deveria (e ainda devo) fazer só cresceu com o passar dos anos e a sua realização só diminuiu. E eu nunca entendi o motivo desse descompasso. Até que dei uma olhadinha em algumas coisas: por que mesmo tem que ser assim?
Chegado enfim a terceira década descobri que passei todo esse tempo acrescentando itens mirabolantes. No meu caldeirão maluco de ser “gente grande” só entrava coisa e nunca tirava nada. Não existe tempo, sanidade e bom senso capaz de dar conta de tanto “tem que”. Tem que ter uma profissional fodona – e agora a última bolacha do pacote do sucesso é ser empreendedor, que veio substituir o antigo combo empresa reconhecida e salário incrível (e ganhar dinheiro ainda segue no topo em qualquer uma das alternativas). Tem que ser culta, o que inclui curso tendência do mercado – o mundo e suas novidades urgentes. Tem que comer bem, tem que meditar, tem que ser espiritualizada, tem que ser desapegada e o o que nunca sai de moda: tem que manter o corpo em ordem. Se tem algo que se mantém em voga é ser gostosa. Dá para customizar, é claro. Pode ser Pilates, Cross Fit, aquela Ioga modinha na sala quente. Importante é estar com tudo durinho.
Tem que (insira aqui um delírio de consumo que você achou que faria/teria/seria aos 30 anos).
Porque mesmo? Tem é?  Então, não tem, viu gente? N-Ã-O tem. Escrever alto e pausado para ver se fixa aqui dentro.
E olha, não precisa abandonar a sua lista não. Está liberado manter todas mas também editar, refazer, rasgar. Faça a sua lista personalizada. Desfaça com o mesmo empenho. Está tudo bem mudar, juro. Se tem uma das poucas coisas que eu sei sobre ser adulta é que as coisas perdem e ganham sentido o tempo todo. Não faz mais sentido tolerar gente chata. Faz sentido viajar para sua cidade natal para ficar uns dias com a avó e o avô jogando Mico. Não faz sentido balada com muito barulho, é melhor encontrar amigos para tomar café. Faz sentido sofá com cobertas no sábado.
Às vezes até o bar ruidoso volta à cena e a gente abandona o conforto do lar. A única coisa que a lista “tem que” ser é dinâmica. De resto, vale até adulta de pantufas. Enquanto for confortável, é claro.

Quando o pai faz anos

O relógio caminha e nos aproxima. Se eu me assusto ao ver o seu cabelo todo branquinho é porque os meus também clareiam por aqui. É estranho o pai da gente virar senhor e, de repente, ser aceito com sorrisos na fila preferencial. Para quem é filho, pai é atemporal. Vai ser sempre pai, não importa quantos anos colecione.

rodolfo-ligia-87
Eu e meu pai na década de 80; detalhe para o meu look Xuxa

Mesmo com a perda recente do meu avô, a velhice ainda parece inesperada. Uma visita indesejada que chegou sem convite. A idade nos amedronta porque expõe o que insistimos em não ver: não temos controle sobre o andar da vida. Somos um monte de pessoas a fingir convictos que vemos o amanhã. Aquele dia esperado que nunca chega.
Meu pai essa semana completou mais um ciclo de vida. Já tem um punhado de anos a encher a própria bagagem. Espero que, a mesmo com o peso da idade, o olhar para o passado seja gentil. Que encontre boas memórias e que seja possível perdoar a si mesmo por tudo que não saiu exatamente como o planejado. Estar aberto ao imprevisto é se permitir leveza na caminhada.

formatura2
Valsa desajeitada na formatura do colégio nos anos 2000

Se o futuro encurtou é hora de manter os pés firmes no dia de hoje.
A gente nasce gente e segue gente por aí. Por mais que o calendário siga com dias riscados. Somos o que temos na essência.

Que você possa fluir, pai! Sempre!
Parabéns! 🙂

O abacaxi de Finados

ligiaabacaxi2

O dia de Finados no meu calendário sempre foi equivalente a folga. Nos tempos de escola, torcia para cair em uma terça ou quinta e, assim, emendar um feriadão. Depois, na vida proletária não tinha essa regalia toda e era só mais um dia de trabalho – um tanto mais tranquilo que os demais. Esse ano foi o primeiro sem o meu avô.

Uma semana antes da data eu tive contato com acessórios funerários e negócios ao redor da morte. Era a minha primeira vez escolhendo a placa de uma lápide. Uma pasta preta pesada, com marcas de uso, repleta de plásticos transparentes levemente amassados nas pontas, envolviam os catálogos. Nos meus tempos de menina, a gente guardava papel de carta em pastas como aquela. Agora, eu folheava uma variedade de itens funerários. Coloca foto? Bronze, aço, alumínio, porcelana? É nome comprido? Vai colocar dizeres? Olha que lindo esse fundo com a Basílica!, me apontava a atendente.

Eu estive na Itália no ano passado e, embora não seja católica, visitei a Basílica de São Pedro. Não, moça, esse borrão não pode ser o mesmo lugar, pensei. Delimitada pelo desenho de uma borda dourada, em nada o artefato me remeteu a terra do papa.

A indecisão já me é característica, mas ter que escolher algo que você não tem impulso algum em comprar é absolutamente indiferente. Em uma tentativa de me ajudar a escolher, a atendente esparramou “amostras” de placas e fotos. Reconheci a princesa Diana de imediato. O restante das imagens eram velhinhos e velhinhas entre nuvens e céu azul – um fundo falso horrível para a foto derradeira.

Fiquei olhando aqueles rostos, as mensagens genéricas e tristes que acompanhavam, fazendo o cálculo do tempo de vida de cada um. Quem seria aquelas pessoas, como estão seus familiares e como se sentiriam ao saber que os entes queridos estão em catálogos funerários. Teriam autorizado?

Pensei que o meu avô poderia um dia ser catalogado. Esqueci a foto e queria até esquecer da placa, se não fosse o pedido da minha avó. Para ela, não ter o registro no túmulo o deixava em situação de abandono. Respeitei a sua vontade, mesmo sabendo que meu avô, definitivamente, não se sentiria assim. Abandonadas ficamos nós duas sem ele, a conviver com o vazio.

A placa escolhida foi modelo básico, com fundo preto e letras douradas. Sem foto. Escrevi calmamente os dados, desenhando da forma mais legível possível. Reli e conferi pausadamente como se fosse a primeira vez que eu rabiscasse aquele sobrenome. Como se soletrar aquelas letrinhas não fizesse parte da minha vida toda. S-O-T-R-A-T-T-I

Colocar no papel é atestar o fim. Torna tudo tão concreto que até a razão fica em dúvida. Embora soubesse a data de nascimento e morte, tive que ligar para o meu pai e conferir. É isso mesmo?

Tudo acertado. Só não se acerta muito nesse papo de não ter avô. Na véspera do dia de Finados, eu já sabia que não me deslocaria até lá. Avesso ao cemitério, não tenho recordação alguma do meu avô cumprindo esse ritual. Ao invés de flores, comprei abacaxi na feira. Segurei pelo topo e puxei uma folha da coroa. Saiu com facilidade, o que indicava o veredicto:

– É esse, moço!

– Está docinho, moça! Pode levar!

– Eu sei! Meu avô plantava abacaxi, moço. Está no ponto.

Desatei a contar as façanhas dele para o feirante. Os dias dele de roça, como ele me ensinou a escolher o abacaxi, a minha origem distante da capital. Revelei o meu orgulho de ser do interior e estufei o peito por ter sido neta do plantador de abacaxis. Devo ter sido a freguesa mais falante naquela véspera de feriado.

Voltei para casa com o meu abacaxi e certa de que, nesse dia esquisito, foi a melhor homenagem que pude fazer.

 

O grito

nazare

Tempos loucos. Está tudo maluco lá fora, meus vizinhos, a TV. A conversa começa difícil em casa, segue tensa nos grupos de Whatsapp, nas redes sociais. Houve ataques à ex-síndica porque foi pedida a retirada das bandeiras da sacada (o regulamento não permite que se coloque nada na fachada – alguns períodos são liberados mediante aviso, como Natal e Copa do Mundo). Acusaram-na de não entender que o momento é uma exceção. Bateram panelas nas sacadas. Mas o aviso para não jogar lixo pela janela segue no elevador. É preciso relembrar as regras básicas de convivência em comunidade.

A intolerância está à flor da pele. Penso um bocado sobre o momento e mais desconfio do que encontro certezas. Lembro do dito popular “de boas intenções o inferno está cheio”. Mas nosso pensamento binário quer o herói e o vilão. É difícil admitir que todo mundo tem em si um pouco dos dois. É olhar no espelho e saber que, embora os seus pares possam te achar bacana, também tem um lado não tão legal assim – e esse é tão feinho que escondemos bastante. Olhar para si é assustador. Imagine mostrar o seu lado estranho para o mundo? Deixa para lá.

Alguém precisa dizer: gente, está tudo bem ser um pouco dos dois! Somos humanos! Simples assim. Aliás, dois lados não! Temos muitos outros, uns guardados, outros aparentes, uns que a gente gosta mais, outros que nem tanto. Somos tão complexos, contraditórios em essência, em dúvida, em transformação.

Esse ano, tive um reencontro com um pessoal que não vejo muito. Conversa vai , conversa vem e me pediram para gritar.

-Gritar?

– É. Dar um grito.

E eu, já embalada por um bocado de cervejas (o álcool e seu poderoso efeito de liberar nossas amarras) dei um berro. E quis saber qual o motivo.

– Você parece tão calma, tão tranquila, do tipo que não grita.

Dei risada.

– Gente, eu não sou legal e boazinha. Eu não gosto de um bocado de coisa, de um bocado de gente, sou bastante ansiosa, aliás.

– Nossa, não parece.

Não é a primeira vez que me falam isso. Outro dia falaram que eu pareço tão calma e serena e meu marido tem cara de bravo. Ri alto! Eu acho meu marido o retrato do equilíbrio e da ponderação. Embora ultimamente, ao falar do cenário político, o diálogo esteja um pouco mais acalorado…

Pois, afinal, ele também não é uma coisa só. E nem eu. Ufa, né?! Mas, de alguma forma não muito consciente, eu deixo mais a mostra meu lado agradável. O meu lado mocinha. Que fique bem claro, a vilã está aqui dentro no melhor estilo Nazaré Tedesco. Com a tesoura em mãos e louca para jogar alguém da escada.

Que antes de classificar o mundo em dois, a gente consiga ver em nós mesmos a luz e a escuridão. É preciso acolher os nossos mundos internos e dar o grito quando for necessário.