O grito

nazare

Tempos loucos. Está tudo maluco lá fora, meus vizinhos, a TV. A conversa começa difícil em casa, segue tensa nos grupos de Whatsapp, nas redes sociais. Houve ataques à ex-síndica porque foi pedida a retirada das bandeiras da sacada (o regulamento não permite que se coloque nada na fachada – alguns períodos são liberados mediante aviso, como Natal e Copa do Mundo). Acusaram-na de não entender que o momento é uma exceção. Bateram panelas nas sacadas. Mas o aviso para não jogar lixo pela janela segue no elevador. É preciso relembrar as regras básicas de convivência em comunidade.

A intolerância está à flor da pele. Penso um bocado sobre o momento e mais desconfio do que encontro certezas. Lembro do dito popular “de boas intenções o inferno está cheio”. Mas nosso pensamento binário quer o herói e o vilão. É difícil admitir que todo mundo tem em si um pouco dos dois. É olhar no espelho e saber que, embora os seus pares possam te achar bacana, também tem um lado não tão legal assim – e esse é tão feinho que escondemos bastante. Olhar para si é assustador. Imagine mostrar o seu lado estranho para o mundo? Deixa para lá.

Alguém precisa dizer: gente, está tudo bem ser um pouco dos dois! Somos humanos! Simples assim. Aliás, dois lados não! Temos muitos outros, uns guardados, outros aparentes, uns que a gente gosta mais, outros que nem tanto. Somos tão complexos, contraditórios em essência, em dúvida, em transformação.

Esse ano, tive um reencontro com um pessoal que não vejo muito. Conversa vai , conversa vem e me pediram para gritar.

-Gritar?

– É. Dar um grito.

E eu, já embalada por um bocado de cervejas (o álcool e seu poderoso efeito de liberar nossas amarras) dei um berro. E quis saber qual o motivo.

– Você parece tão calma, tão tranquila, do tipo que não grita.

Dei risada.

– Gente, eu não sou legal e boazinha. Eu não gosto de um bocado de coisa, de um bocado de gente, sou bastante ansiosa, aliás.

– Nossa, não parece.

Não é a primeira vez que me falam isso. Outro dia falaram que eu pareço tão calma e serena e meu marido tem cara de bravo. Ri alto! Eu acho meu marido o retrato do equilíbrio e da ponderação. Embora ultimamente, ao falar do cenário político, o diálogo esteja um pouco mais acalorado…

Pois, afinal, ele também não é uma coisa só. E nem eu. Ufa, né?! Mas, de alguma forma não muito consciente, eu deixo mais a mostra meu lado agradável. O meu lado mocinha. Que fique bem claro, a vilã está aqui dentro no melhor estilo Nazaré Tedesco. Com a tesoura em mãos e louca para jogar alguém da escada.

Que antes de classificar o mundo em dois, a gente consiga ver em nós mesmos a luz e a escuridão. É preciso acolher os nossos mundos internos e dar o grito quando for necessário.