Costura a dois

A gente olha foto no porta-retrato, nas redes sociais, nos arquivos do computador. O cabelo parecia mais escuro, a pele mais lisa, nada de rugas na testa. As imagens denunciam mais do que a memória, já são 6 anos de vida a dois.
Dissimula quem diz que a caminhada é fácil, ou minimiza as crises diárias que o convívio impõe. Não há um grande motim ou uma rebelião que faz tudo desandar, de supetão. São miudezas não cuidadas que, aos poucos, se tornam pilhas de mágoas e ressentimentos. Não são os gritos que esfacelam um casal, é o silêncio e a ausência constante que mais dói. É a distância consentida na rotina.
Casar é escolher muitas vezes. É todo dia achar em você mesmo o motivo para seguir. É lembrar que relacionar-se não é tarefa fácil mesmo. Quem disse que lidar com o outro é só bom? Tem sangue, suor e lágrimas – às vezes literalmente. Se vale a pena?


Cada um tem a sua própria resposta. Não depende do outro nem está em best seller de conselhos matrimoniais. É preciso aprofundar-se em si, se conhecer e, de novo, escolher.
Eu sigo porque, ao fim do dia, é um conforto enorme suspirar de outra forma e ter alguém que percebe o seu descompasso. É confortável ter alguém para receber e ofertar o ombro – aquele canto em que sua cabeça já encaixa certinho, de tanto que você já se encostou ali.
Ele percebe sempre quando você não está bem? Evidente que não. Não existe marido guru. Mas nesses dias desatentos você pode gritar, com as pantufas amarelas, moletom rosa e meleca no nariz. “Eii, quero falar. Senta aqui!”
Dá para usar a exclamação, impor, bater o pé. Sem avaliar se está bonita o bastante, se a depilação está em dia, nem achar que será inconveniente. Sem pensar no que parecer. É só ser. E pronto.
Dá briga? É possível. Pode vir outras queixas como resposta, pode vir compreensão, pode vir impaciência. Tudo pode. Seja o que vier, a gente para, se ajusta, conversa, briga de novo, perdoa, beija, chora, assoa o nariz, dá risada, se ajeita.
É um eterno aperta, arruma, alarga, faz a barra. Ato de costura. Mas remendado fica bom? Não fica como antes e, afinal, o que nessa vida não carece de reparo, vez ou outra? Nada é imune ao tempo.
Entre um jeans novo, moderno e descolado que ainda precisa pegar forma, eu gosto de peça antiga, descontruída e remodelada com linhas de história, companheirismo e afeto.