Conexão

De longe qualquer cenário pode apavorar. O outro só é outro quando existe distância, contato remoto, cordial, relação de superfície. Sabemos pouco e julgamos muito. Na tentativa de se proteger, de entender, de decifrar, conjecturamos tanta coisa. De repente, estamos lá, a levantar espada para um moinho de vento, tal qual o Dom Quixote. Produzimos ficção e, em um suspiro, tomamos por realidade a nossa peça fantasiosa.

Vem o universo a desnudar a vida como ela é. Somos todos corpo, alma e sentimentos. Nessa confusão construímos nossas histórias e desenhamos caminho. É cada cenário bonito se tem para ver por aí. Toda pessoa é um artista da própria vida. Parece frase de impacto e clichê. Mas é o que nos conecta. Somos tão parecidos em nossas humanidades. É insegurança, é dúvida, é força, é energia. Todos temos dentro tudo isso e, ao invés de admirar somente a própria tela, vale uma pausa para ver a grama verde do vizinho. Esparramar disponibilidade para enxergar outros olhos, dividir, partilhar, chorar.

O gramado que brilha tem uma narrativa de amor, de luta, de coração partido. Não há quem não tenha vivido uma frustração, uma perda e, com os pedaços esparramados reconstruído a própria vida. Viver é ajeitar diariamente o quebra-cabeça. É insistir em deixar o quintal verdinho mesmo com a chuva escassa, recuperar a paciência e replantar, tirar o que atrapalha o crescimento, persistir. A grama reluzente ao sol hoje pode amanhecer amanhã sem brilho. Seja qual for o estágio do quintal do outro – e do seu – continue a cuidar das relações humanas.

Esse poder de conexão entre as pessoas é tão incrível e arrebatador que eu recomendo a todo mundo. Todo encontro vale a pena. Certo quem disse que a vida é arte do encontro. Mas ele não precisa ser assim tão raro. Não espere ocasião especial, traje pomposo, convite com letras douradas enviado pelos Correios. Pode ser via inbox do Facebook, pode ser whatsapp e pode ser inesperado – desde que você esteja aberto a ele.

Na semana passada, uma simples troca de mensagem resultou em um café. Conversa que começou com a luz da tarde e se esticou animadamente até para lá da hora do jantar. Tanta vulnerabilidade exposta à mesa, sendo servida e partilhada. Conquistas modestas para a louca vitrine do mundo que prega o sucesso instantâneo, mas imensas aqui dentro da gente que sentiu as dores – e delícias – de cada passo dado. Sair do zero, ainda que sinta que é zero-vírgula-alguma coisa, já é um passo à frente a formar o caminho.

Insisti na troca virtual de comunicação e, no dia posterior ao café, me vi em outro encontro, dessa vez com cerveja no dia mais celebrado da semana – sexta-feira êêêê!!! Doloridas histórias e lembranças que, ao dividir com alguém, ajuda a assentar a tristeza e lembra que, apesar de tudo, a roda da vida segue e volta a nos dar trazer alegria. Momentos bons como o próprio reencontro embalado a cerveja e batata frita na Augusta, um novo desafio profissional, o casamento que logo terá seus votos afirmados no papel. Dá para pulsar mesmo com as saudades no peito.

E como nem tudo é agendado, tive um encontro inesperado no fim do ano passado, que já entrou na lista dos memoráveis. Caso de doença não é daqueles acasos felizes, mas, mesmo na dor, a gente também pode se conectar e achar algo bom para levar. De todo o sufoco de alguns dias, foi a trajetória de uma mulher forte que me ficou na memória – e também no coração. Uma biografia linda, repleta de batalhas e conquistas, de partidas e da chegada de um amor pleno na maturidade. Vitalidade pura!

Agradeço a vida por cada um desses encontros e, a cada uma dessas mulheres, agradeço por permitir a troca. Que todo mundo consiga abrir um cantinho em si mesmo e também receber de volta.