Como se despedir de alguém?

A Doença de Alzheimer é um pisca-pisca. Tem hora que acende e meu vô tem alguns instantes de presença. Em seguida, apaga e fica pairando em algum lugar distante. A gente nunca sabe quando vai acender nem quando vai apagar. Aproveita enquanto tem luz. Quando a escuridão volta se esforça para manter algum brilho aceso. Puxa uma prosa, tenta resgatar uma memória, arrisca uma piada. Faz o bobo da corte.


Em um desses dias enevoados eu me arrisquei em uma atividade em que sou péssima: cantar. A música é, ultimamente, o ponto de conexão do meu vô com o mundo externo. É quando seus olhos verdes opacos identificam o som e ele volta a estar presente.
“Há uma nuvem de lágrimas sobre os meus olhos, dizendo para mim que você foi embora e não demora o meu pranto rolaááááár”. Segui com o lá lá lá na maior enrolação. Aqui vale a confissão, eu não canto nem em karaokê. Porém, ridiculamente eu tentava seguir a Fafá de Belém na TV. Eu só queria começar a música para ele me seguir. Silêncio. Nada. Pisca-pisca segue apagado, pensei frustrada.
O olhar dele desvia da TV para mim que, nessa altura, além de enrolar a cantoria já fazia passinhos desajeitados na sala. Vira o pescoço, me olha, não canta. Sentencia:
– Você está desafinada!
– É mesmo, vô?
– Tem que seguir o tom.
– Eu sou ruim mesmo, vô. Como faz?
Ele balbuciou um trechinho da música e logo sacudiu a cabeça, me reprovando de vez como intérprete. Depois, deu uma sonora risada e colocou a mão no meu ombro. O riso rouco de vô fumante que eu conheço desde que sou pequena. Comemorei a luz acesa de novo.
Assim que se apaga o coração aperta um pouquinho. Respira, suspira, agradece. E torce para que o pisca-pisca funcione mais um Natal ou até a despedida.