Códigos

Tudo complicou demais. Era sigla, era termo, era estratégia. Desenvolveu antipatia pela palavra estratégia. Seguida de digital, então, revirava o estômago, o intestino, o esôfago e cada cantinho do seu aparelho digestivo. Sim, era a digestão seu ponto fraco. Era para lá que todas as dores do mundo se concentravam. Mágoa, tristeza, brigas, dor, decepção. Tudo encerrava ali, em algum lugar entre a garganta e a barriga.

Bom, não bastasse as mazelas do mundo todo no seu pobre aparelho digestivo tinha todo o mundo digital para engolir agora. Até se considerava um pouco conectada. Nível básico. A tecnologia é incrível, mas aqueles numerinhos ali na tela apertava-lhe o ar no pulmão. Número não, amor, isso é código, explica o marido, para quem tudo era tão lógico e simples.

Código?! Que ca#@!%! Não conseguia nem memorizar a senha do e-mail e do Facebook. E de repente, pá! Outra rede social imperdível que todo mundo estava e que se tornava instantaneamente mais fundamental que oxigênio.

Puxou o ar com dificuldade como se o septo tivesse ficado ainda mais defeituoso. Respira. Lembrou do áudio da meditação. Mas estava no computador, em alguma pasta, arquivo, sabe-se Deus onde. Ficou mais nervosa. Deixa para lá. Vou respirar a minha moda.

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CEO? Não, SEO. É “esse” e não “cê”. Não dá nem tempo de acostumar com a pompa de um chefe que virou CEO – e o ódio aos termos em inglês se aprofundou ainda mais – e já tem sigla parecida no pedaço.

Uma coisa não tem nada a ver com outra, amor – o marido sorria e achava graça. E, com paciência, soletrou os dois termos, em inglês, em português, mas soava mesmo era mandarim. Indecifrável. No minuto seguinte, esqueceu cada vírgula pausada do cônjuge.

Jesus, que tempos são esses? O que é Pokemon GO, amor? Ele tentou explicar. Ela tentou entender. O cérebro desconectou quando ele falou algo sobre realidade aumentada. A realidade já é tão difícil, gente, precisa aumentar?! Deixa para lá. Não ia jogar nada mesmo. Parou no Super Mario Kart na década de 90. Recaiu nos jogos muitos anos depois com os passarinhos, qual era o nome? Angry Birds! Eram bonitos. Mas durou pouco tempo, cansou. Foi feliz e fim.

Entendeu que o caminho era simplificar. Digital, só o que é necessário e compreensível. De resto, escrever segue sendo analógico. Para ele, os códigos, para ela, as letrinhas. Que, graças a Deus, ainda são iguais – até agora.