Bater um fio

De fixo para fixo, somos as últimas sobreviventes dessa antiga forma de comunicação. Eu não ligo por ela. Eu ligo por mim. Não importa que a história é repetida, o assunto é requentado ou se é roteiro do programa de TV que ela assistiu durante a noite. O alô do outro lado é conforto e pertencimento. É a volta para casa, cheia de trivialidades nostálgicas. É ver a luz atravessar a barreira transparente do vitrô da cozinha até a chaleira de alumínio no fogão, vê-la com o avental amarrado na cintura a dar um bom dia apressado de quem já articulava o almoço.


Tudo é diferente agora, os espaços, a rotina, a ausência dele. Permanece igual o aconchego do outro lado da linha a afagar o meu coração de neta.
Pouco importa a minha bagagem de mulher adulta de trinta e tantos anos. A casa dela é o meu canto de proteção de infância. Meu esconderijo nada secreto em que eu volto a ver quem sou. É reencontro com a essência.
Não por acaso, somos parecidas. Manias e teimosias partilhadas por nós. Cultivadas ou herdadas, a vida se repete em gestos, nas ações e nos mini dramas cotidianos. Em relatos telefônicos.
Toda semana eu repito o telefonema. Ela repete uma história qualquer.
Viver pode ser uma adorável repetição.