Ansiedade hereditária

Quando eu falo para ela sentar, parar, respirar, é para eu mesma entender que a vida permite pausas. Permite e precisa.
Ela tira a xícara da mesa. Se apressa em lavar, enxugar, guardar. Assim, em ritmo frenético. Como se, aos 84 anos, tivesse compromissos inadiáveis. Mas o compromisso, entendo, é com ela mesma. Com a sua própria ansiedade. Ela precisa atender esse chamado louco que diz que tudo é urgente. Rápido. Pra ontem. Agora. Já. Louça parada no escorredor nem pensar. Tira o lixo. Mesmo que só estejam ali dois inocentes papéis a repousar. É o suficiente para lhe sufocar a respiração. Trazer o caos. Desconforto. Incômodo. Tira. Coloca no outro cesto. O maior da casa. Agrupa o lixo em uma sacola. Separa recicláveis em outra. Se aventura à noite na calçada para se antecipar aos lixeiros. Perder? Nem pensar. Esperar dois dias é missão impossível. Para cada visita do lixeiro que, religiosamente, cumpre o trajeto três vezes por semana, é necessário marcar território. Estar presente em todas. Nem que seja com uma discreta sacolinha. Cinco xixis, um cocô, um cotonete, meleca de nariz no lenço de papel. Lixo modesto de viúva. Não importa. Lixo é lixo. Vai encontrar o lixeiro. Com antecedência. Na casa dela nem lixo perde a hora. Hora perdida é desespero certo. A gente perde a hora porque esqueceu o lixo ou se perde na ansiedade? Dá para ganhar hora? Tem que ganhar ou perder? Não dá para ser só hora? Tem que competir com o tempo para ver se a gente ganha ou perde?
O tempo segue e a gente que qualquer hora vai ficar. Acaba.