O abacaxi de Finados

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O dia de Finados no meu calendário sempre foi equivalente a folga. Nos tempos de escola, torcia para cair em uma terça ou quinta e, assim, emendar um feriadão. Depois, na vida proletária não tinha essa regalia toda e era só mais um dia de trabalho – um tanto mais tranquilo que os demais. Esse ano foi o primeiro sem o meu avô.

Uma semana antes da data eu tive contato com acessórios funerários e negócios ao redor da morte. Era a minha primeira vez escolhendo a placa de uma lápide. Uma pasta preta pesada, com marcas de uso, repleta de plásticos transparentes levemente amassados nas pontas, envolviam os catálogos. Nos meus tempos de menina, a gente guardava papel de carta em pastas como aquela. Agora, eu folheava uma variedade de itens funerários. Coloca foto? Bronze, aço, alumínio, porcelana? É nome comprido? Vai colocar dizeres? Olha que lindo esse fundo com a Basílica!, me apontava a atendente.

Eu estive na Itália no ano passado e, embora não seja católica, visitei a Basílica de São Pedro. Não, moça, esse borrão não pode ser o mesmo lugar, pensei. Delimitada pelo desenho de uma borda dourada, em nada o artefato me remeteu a terra do papa.

A indecisão já me é característica, mas ter que escolher algo que você não tem impulso algum em comprar é absolutamente indiferente. Em uma tentativa de me ajudar a escolher, a atendente esparramou “amostras” de placas e fotos. Reconheci a princesa Diana de imediato. O restante das imagens eram velhinhos e velhinhas entre nuvens e céu azul – um fundo falso horrível para a foto derradeira.

Fiquei olhando aqueles rostos, as mensagens genéricas e tristes que acompanhavam, fazendo o cálculo do tempo de vida de cada um. Quem seria aquelas pessoas, como estão seus familiares e como se sentiriam ao saber que os entes queridos estão em catálogos funerários. Teriam autorizado?

Pensei que o meu avô poderia um dia ser catalogado. Esqueci a foto e queria até esquecer da placa, se não fosse o pedido da minha avó. Para ela, não ter o registro no túmulo o deixava em situação de abandono. Respeitei a sua vontade, mesmo sabendo que meu avô, definitivamente, não se sentiria assim. Abandonadas ficamos nós duas sem ele, a conviver com o vazio.

A placa escolhida foi modelo básico, com fundo preto e letras douradas. Sem foto. Escrevi calmamente os dados, desenhando da forma mais legível possível. Reli e conferi pausadamente como se fosse a primeira vez que eu rabiscasse aquele sobrenome. Como se soletrar aquelas letrinhas não fizesse parte da minha vida toda. S-O-T-R-A-T-T-I

Colocar no papel é atestar o fim. Torna tudo tão concreto que até a razão fica em dúvida. Embora soubesse a data de nascimento e morte, tive que ligar para o meu pai e conferir. É isso mesmo?

Tudo acertado. Só não se acerta muito nesse papo de não ter avô. Na véspera do dia de Finados, eu já sabia que não me deslocaria até lá. Avesso ao cemitério, não tenho recordação alguma do meu avô cumprindo esse ritual. Ao invés de flores, comprei abacaxi na feira. Segurei pelo topo e puxei uma folha da coroa. Saiu com facilidade, o que indicava o veredicto:

– É esse, moço!

– Está docinho, moça! Pode levar!

– Eu sei! Meu avô plantava abacaxi, moço. Está no ponto.

Desatei a contar as façanhas dele para o feirante. Os dias dele de roça, como ele me ensinou a escolher o abacaxi, a minha origem distante da capital. Revelei o meu orgulho de ser do interior e estufei o peito por ter sido neta do plantador de abacaxis. Devo ter sido a freguesa mais falante naquela véspera de feriado.

Voltei para casa com o meu abacaxi e certa de que, nesse dia esquisito, foi a melhor homenagem que pude fazer.