A regra agora é outra

Esqueça o seu corpo como você o conhece. Nada mais funciona da mesma forma. Ou não. Pode ser que ele não se abale em nada no trabalho de formar um novo humano. Não é o meu caso.
Sabe aquela digestão que funcionava? Ela tornou-se imprevisível. Quase brincadeira do morto vivo, sendo morto cocô sofrido e vivo cocô diarreia.
Não importa a refeição. Você pode repetir o mesmo prato e o mesmo modo de fazer, mas naquele dia o seu intestino resolveu fazer outro esquema e deu ruim.
Em um dia mágico, a vida volta nos eixos e o cocô tal qual você estava habituada volta a acontecer. Você celebra o controle, mesmo sabendo que você não teve nada a ver com isso.
A fase seguinte é sempre no escuro. Pode ser um refluxo antes de dormir, uma fome incontrolável que cessa na primeira garfada porque parece que um elefante já ocupou todo espaço disponível.


Você dá um google nas dicas, tira isso, evita aquilo, come aquilo outro. Você faz e a lógica é a mesma: a decisão não é sua. Tem dia que dá certo. Noutros, toda a sua privação não faz sentido e lá vem o refluxo noturno. Se soubesse que seria assim, teria comido um dogão. Melhor ainda: pastel com garapa.
E dá-lhe relatos, dicas, livros, médico condenando carboidrato, gente dizendo para comer tudo, outros censurando cada garfo. Vale o “meu corpo minhas regra”. O problema é que na gravidez eu deixei de saber qual a regra.
Na dúvida, cortamos o que não é vital. Álcool, uma neosaldina aqui, um remédio de alergia acolá. Reduzimos o açúcar mas não eliminamos para não surtar. No bate-papo com a amiga existe licença poética para um doce com jarrinha de calda de chocolate. Viver esses momentos é preciso, já que não sabemos qual cardápio tolerável da próxima semana.
Equilibrar um corpo em gestação é uma linha tênue entre não pisar na jaca nem virar a Pugliesi. Saber – e sentir nos poros – que o exagero não é bem-vindo tampouco a privação.
É todo dia ouvir o próprio corpo, encarar o prato e abusar de todos os sentidos para saber o que vale a pena ou não. É ler a intuição e não o compêndio da nutrição.
É mixar conselhos para criar o seu. E saber que ele vai ser outro no minuto seguinte. Talvez seja a síntese da transformação em andamento. Tudo vai mudar o tempo todo de supetão e sem alertas: seus hábitos, suas convicções, suas regras – e até mesmo o cardápio.