A lista do você tem que fazer

Em algum momento da história surgiram milhares de listas do que a gente deve fazer. De livros a textos de internet com certeza você já viu alguma por aí. Coloquei no google “20 coisas para fazer…” e já tive um bom cardápio: antes dos 30, dos 20, de morrer, de casar, de se apaixonar. Tem lista de 30, 40, 1000 itens. Tem para homem, mulheres, solteiras, todo ser vivo no planeta. Livro imperdíveis, filmes, comida e restaurantes que você precisa conhecer (são as minhas favoritas!), lugares (uso todas possíveis para decidir as férias), e até anti-lista – tem o que você deve parar de fazer.
A listas são divertidas e deve ter lá algum item que você pode usar (comer sobremesa calórica no café da manhã foi uma dica que eu seguia sem saber!). Há exageros, como pular de paraquedas – aqui vale a ressalva, é um absurdo para alguém como eu que passa mal até em brinquedo de parquinho do interior. Algumas são alertas, outras em tom de conselho, tem as que são um compilado de dicas.
A minha não tem números nem está escrita no papel. Devo ter ouvido e fui pegando, guardando, fazendo um calhamaço enorme de ideias do que eu achava que deveria ter realizado ao chegar na vida adulta. E essa linha entre jovem e adulto na minha cabeça era os 30 anos. Afinal, todos os adultos que eu conheci quando era menor tinha mais ou menos essa idade (inclusive, meu pai já era o meu pai).
lista
As coisas que eu deveria (e ainda devo) fazer só cresceu com o passar dos anos e a sua realização só diminuiu. E eu nunca entendi o motivo desse descompasso. Até que dei uma olhadinha em algumas coisas: por que mesmo tem que ser assim?
Chegado enfim a terceira década descobri que passei todo esse tempo acrescentando itens mirabolantes. No meu caldeirão maluco de ser “gente grande” só entrava coisa e nunca tirava nada. Não existe tempo, sanidade e bom senso capaz de dar conta de tanto “tem que”. Tem que ter uma profissional fodona – e agora a última bolacha do pacote do sucesso é ser empreendedor, que veio substituir o antigo combo empresa reconhecida e salário incrível (e ganhar dinheiro ainda segue no topo em qualquer uma das alternativas). Tem que ser culta, o que inclui curso tendência do mercado – o mundo e suas novidades urgentes. Tem que comer bem, tem que meditar, tem que ser espiritualizada, tem que ser desapegada e o o que nunca sai de moda: tem que manter o corpo em ordem. Se tem algo que se mantém em voga é ser gostosa. Dá para customizar, é claro. Pode ser Pilates, Cross Fit, aquela Ioga modinha na sala quente. Importante é estar com tudo durinho.
Tem que (insira aqui um delírio de consumo que você achou que faria/teria/seria aos 30 anos).
Porque mesmo? Tem é?  Então, não tem, viu gente? N-Ã-O tem. Escrever alto e pausado para ver se fixa aqui dentro.
E olha, não precisa abandonar a sua lista não. Está liberado manter todas mas também editar, refazer, rasgar. Faça a sua lista personalizada. Desfaça com o mesmo empenho. Está tudo bem mudar, juro. Se tem uma das poucas coisas que eu sei sobre ser adulta é que as coisas perdem e ganham sentido o tempo todo. Não faz mais sentido tolerar gente chata. Faz sentido viajar para sua cidade natal para ficar uns dias com a avó e o avô jogando Mico. Não faz sentido balada com muito barulho, é melhor encontrar amigos para tomar café. Faz sentido sofá com cobertas no sábado.
Às vezes até o bar ruidoso volta à cena e a gente abandona o conforto do lar. A única coisa que a lista “tem que” ser é dinâmica. De resto, vale até adulta de pantufas. Enquanto for confortável, é claro.