A imensidão da velhice

Os dias da velhice são longos. Afrontando a juventude, que nunca tem tempo para nada, a reta final da vida tem as horas esticadas. As refeições aumentam, os cochilos também e, mesmo com a agenda cheia de médicos, ainda se tem espaço para fazer nada – e o melhor, é ócio sem culpa! Afinal, as obrigações da vida já foram cumpridas. E, se não foram, tanto faz.

Dá para fazer somente o que se gosta, abandonar um hobby e começar outro, trocar de novo, tentar, deixar pra lá. Dá para ver o movimento na rua sentado em cadeira de praia.

Tenho pouca memória do meu vô indo trabalhar. Eu tinha cinco anos quando ele se aposentou e tornou-se dono do próprio tempo. Não era uma rotina frenética, mas também não tão descansada assim. Havia espaço para tudo, para pescar, tocar violão, jogar baralho. As refeições variavam pouco de horário e, entre elas, a vida era preenchida. Na volta completa do relógio muita coisa se encaixava e não havia sobra, nem escassez. O tempo parecia na medida para o que se queria fazer.

Mas o descompasso parece sempre invadir a melodia da vida e, o que estava ajeitado, se alargou um pouco. Os dias completos que vestiam tão bem os desejos da aposentadoria, tornaram-se maiores e cheio de horários vagos. É verdade que as limitações da idade deixam o dia longo, não se vai mais de carro às compras, não se aventura na beira do rio, o percurso a pé é só até a esquina de casa. As atividades encurtam e o dia aumenta. Mas a grande mudança é que os minutos se alongaram um bocado mais quando a memória já não ajuda.

O momento presente e o amanhã de misturam, o ontem às vezes entra na dança e já não se tem o controle do calendário. Sem saber muito sobre a divisão do relógio ele se torna enorme. Um dia parece muitos, uma semana equivale a meses. O silêncio cresce nessa imensidão de tempo livre. O quarto, a sala, uma fresta de sol, o escurecer. Tudo tem silêncio e mansidão.

De repente, um som chama a sua atenção e ele fixa os olhos no filho primogênito sentado ao lado. O seu olhar ganha brilho e parece sorrir. Respira e canta junto:

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do meu pode ser

Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação

Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror
Eu só sinto é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor

E aquele dia interminável e quieto, volta a cadenciar. Embalado pela música, no tom exato das notas, no sofá da sala. Os nervos do vó já estão maleáveis. Mas os Nervos de Aço da música de Lupicínio Rodrigues seguem firmes na memória.
Contrariando as horas vagarosas e demoradas, aqueles instantes foram tão ritmados que marcaram o tempo, congelaram e se tornaram lembranças.
A vida insiste em pulsar mesmo na calmaria do seu fim.